Eugênio Moreira - Estado de Minas
O que hoje é corriqueiro, há 80 anos, foi uma grande novidade para o torcedor de Belo Horizonte: uma equipe estrangeira em exibição na cidade. “Bello Horizonte, pela primeira vez, vae assistir a um jogo internacional de foot-ball: o Victoria FC, de Setúbal, virá enfrentar o Club Athletico Mineiro, a convite dessa valorosa sociedade”, anunciou, com destaque, o Estado de Minas de 29 de agosto de 1929. Segundo o jornal, a notícia da vinda da equipe portuguesa “empolgou o nosso mundo esportivo e, quiçá, a toda a capital, ansiosa por presenciar um encontro internacional”. Houve venda antecipada de ingressos e mesmo as crianças tiveram de pagar preço normal: 15 mil réis na cadeira numerada, 10 mil na arquibancada, 6 mil na geral e 5 mil para senhoras. A diretoria atleticana divulgou nota explicando que, por causa do grande investimento para trazer o clube português a Belo Horizonte, solicitava de seus sócios que pagassem 5 mil réis de ingresso, além da mensalidade de agosto. Somente os escoteiros tiveram entrada gratuita. O Atlético anunciou também que, se a Liga Mineira não adiasse seu jogo contra o Palmeiras, pelo Campeonato Mineiro, entregaria os pontos. Em reunião na quinta-feira, a entidade decidiu adiar todos os jogos marcados para domingo para ceder a data exclusivamente ao amistoso internacional. No entanto, os dirigentes comunicaram que estranhavam o fato de o Atlético ter negociado a vinda do time português sem avisar a entidade. “Na reprodução de fato idêntico, a Liga tomará outra atitude, para ressalvar sua autoridade”, terminava o comunicado. A delegação do Vitória, de Setúbal, chegou à capital mineira na sexta-feira à noite, foi recebida por dirigentes do Atlético, da Liga e de outros clubes, como Palestra, América, Sete de Setembro, Guarany, do Calafate, e Fluminense, e ficou hospedada no Hotel Avenida. Muitos jogadores haviam disputado a Olimpíada de Amsterdã, no ano anterior, e os destaques eram o goleiro Roquette, o zagueiro Carlos Alves e o lateral-direito Tamanqueiro. O Vitória havia feito amistosos em São Paulo e no Rio, com resultados ruins. Empatou por 2 a 2 com a Portuguesa Santista e por 1 a 1 com a Seleção da Associação Paulista de Esportes Atléticos (Apea). No Rio, perdeu por 2 a 1 para o América e também para a Seleção Carioca. Carlos Alves explicou que a equipe estranhara a iluminação nos campos cariocas, já que nunca havia jogado à noite. Sobre Belo Horizonte, o zagueiro português era só elogios: “É uma linda cidade. Suas ruas e avenidas, muito extensas, largas e bem arborizadas, fazem dela uma das mais belas cidades que conheço”. A empolgação aumentou no dia da partida, 1º de setembro: “Mais algumas horas e o mundo esportivo da capital estará vibrando de entusiasmo ante a formidável peleja internacional que se anuncia para hoje no Estádio Antônio Carlos”, anunciava o EM. O jogo foi tratado como um acontecimento histórico: “Na pugna que se travará logo, portugueses e brasileiros, mais uma vez, entrelaçados, farão uma demonstração pública do valor esportivo de uma raça forte e valorosa. Pouco importa a contagem que o final do jogo assinalará. A luta é de cordialidade”. O presidente do Atlético, Leandro Castilho Moura Costa, também destacava a ousadia do empreendimento: “Vencedor ou vencido, o Atlético estará vitorioso. E eu digo com desvanecimento: a grande vitória nós já a conquistamos – a de haver trazido à capital um clube estrangeiro. E, mais importante, coube ao Atlético proporcionar aos ‘sportmen’ de Belo Horizonte a primeira partida internacional de futebol”. O JOGO O Atlético não teve dificuldade para derrotar os portugueses: 3 a 1, de virada. Martins marcou para o Vitória. Said empatou de pênalti, ainda no primeiro tempo. Na etapa final, Mário de Castro, de cabeça, e num chute forte, de fora da área, viraram o placar. Na avaliação do EM, o time de Setúbal “é um conjunto pesado. A linha dianteira não corresponde ao resto do conjunto”. O goleiro Roquette foi o destaque, impedindo uma derrota por placar mais dilatado, e os zagueiros Carlos Alves e F. Silva também foram bem. Apesar de toda a pompa que antecedeu a partida, houve dois pequenos incidentes. Os portugueses voltaram do intervalo com uma bola de numeração maior que a usada no Brasil, a 5, e queriam disputar o segundo tempo com ela. O Atlético alegou que eles jogaram com a bola brasileira em São Paulo e no Rio e que aqui não seria diferente. Os patrícios acabaram aceitando. Na etapa final, o jogo ficou interrompido por quase 10 minutos, depois que Mário de Castro e o goleiro Roquette se chocaram numa disputa de bola. Os zagueiros portugueses entenderam que houve maldade do atacante atleticano e partiram para cima de Mário e Jairo. A torcida invadiu o campo, e os policiais tiveram de intervir para acalmar os ânimos.
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